quinta-feira, 28 de abril de 2016

O cigarro
apagou-se três vezes
consecutivas nos lábios secos
sem que percebesse.
o lábio, que continha água
olhava atento o toque que vinha.
Desejo.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

percatas brancas


O vai e vem da escova de cerdas amarelas
naquela havainas brancas de correias na cor azul infância,
nas percatas de quando menina em meio ao quintal 
para lá pouco mais dos sete anos de idade…
hoje, ao ariar minhas percatas de infância 
na boquinha da noite, 
(a hora mais saudosa de todos os meus dias)
eu ouvi vó me dizendo,
às vezes ranzinza gritando de lá da porta da cozinha
“ te assunta,menina, vá ariar essas percatas” 
eu ia e ariava, nem sempre deixava ‘alvinha’ como era do gosto dela. 
Hoje, com um pouco mais de idade
ainda calço aquela mesma havaianas.
ariei minhas percatas a sós
sem quintal
sem os gritos de vó nos pés de meus ouvidos.
quem gritou hoje foram as memórias,
a saudade
o afeto.
a boquinha da noite chegou
aliás, já passou
e ao ariar minhas percatas brancas 
eu vi que ela jamais vai ser do jeitinho que eu calcei pela primeira vez 
as marcas dos dedos dos pés no solado das percatas 
são das terras pisadas em todo dia
gosto de andar de percatas, sujar os pés de terra
(suspiro) quem me dera fosse a do quintal de lá
ao ariar minhas percatas brancas 
eu vi que não precisa colocar tanta força na escova 
nem tanto sabão assim
é em vão
há marcas que não saem
como as marcas da saudade sentida de longe.