sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Um velho caminhava em direção ao sul, mal sabendo ele que os seus passos eram registrados por algum olhar atento que pairava nesta cidade em seu anonimato. O olhar pausa o passo esperando que ele avance para que a sua observação fosse mais cautelosa, sinuosa poesia que brotava na mesma intensidade sinuosa que aqueles pés tocavam o chão coberto por pedras portuguesas, sobre a cabeça, grande copas de árvores. 
Era um velho branco, com as características daqueles senhores burgueses da Bahia do tempo de Jorge Amado e os Capitães da Areia. O seu rosto não pudera ver, mas registrou cada detalhe de dentro, desde que visto pelas costas que transpareciam pelo olhar curioso. Ele tinha um belo chapéu branco amarrado com uma fita de cetim preta que assentava na sua cabeça grisalha, apesar dos poucos fios aparentes. Fios escorridos. Escorregadios, quase brancos de tão nulos, aliás, quase nulos de tão brancos. Bom, era um velho senhor com chapéu branco na cabeça, uma calça esverdeada de linho que caia perfeitamente sobre o seu corpo esguio. Branco. Uma camisa branca, daquelas três quartos, devia ser de botão, mas este detalhe não aparecera perante aos olhos castanhos. Nos pés um sapato social, preto, bem engraxado cobria-lhe cuidadosamente. Ah, houvera em toda esta cena, um cinto marrom que ornou com os tons do corpo branco e das vestes. 
O olhar curioso tomou sua própria atenção ao que na mão esquerda o velho carregava. Branco. E ao ato rotineiro para os dias. Ato este que ganhará mais clareza quando maior ousadia tiver de se amostrar. Quando deixar dessa besteira do anonimato dos sentidos, sendo que tudo que a sutileza dos sentidos menos precisa é de ser anônima. Os sentidos são ousados, ou pelo menos deveriam ser. Os olhos nunca antes tinham visto o mesmo ato que eles fazem cotidianamente quando se põe a andar pela cidade. Entre seus muros engradeados. Nunca antes tinha visto o mesmo ato repetido por mãos de outra pessoa, senão por suas próprias mãos. Mas este velho surgira nesta noite de quase natal, entre as luzes brancas que brilhavam amarrada nas grandes árvores centenárias para mostra-lhe o ato por outras mãos. Brancas. 
Ato sutil, de gente boba, jovem, descabelada, que aprendeu a brincar assim, como forma de tomar a cidade para si. Como forma de negar o espaço segregado, a separação dos corpos. Pela cor. Pela classe. De negar o medo de ser livre, o medo de conhecer o outro, de se entregar ao outro num sorriso largo que mostre as águas que correm dentro. De negar o medo bobo de sermos bobos. Porque é isso que somos em verdade. Bobos. Este ato é essencial ao dia dos olhos que caminham pairando por ai. Pelo ar. Pelo mar que sempre ia. Mar ia. 
Olhos cautelosos pelo movimento lento, de passos de homem lento. Na mão esquerda o velho carregava dentro de uma sacola de supermercado um panetone. Carregava o Natal próximo. Sacola branca que encobria por partes a embalagem vermelha e um laço vermelho em fita de cetim, só conseguia enxergar um pedaço, o suficiente para estar. Aquele panetone deveria ser presente, talvez para si próprio. Para aqueles olhos um filme se criou. Uma família toda esperava aquele panetone. Na sala de estar uma grande árvore de natal, arrodeada de presentes para os netos. Na cozinha, comida farta. Mesa cheia. Nos corações, a sensação do natal que já renasce aos poucos. De acordo com os dias que passam. Aquele velho entraria pela porta com os mesmo passos lentos de rua, abraçaria sua esposa, uma velha grisalha muito simpática. Um dos seus netos correriam ao seu encontro e o quase derrubava ao chão de porcelanato. Branco. Aquele laço seria desfeito, o panetone aberto aos desejos de natal. Ele deitaria na sua cadeira de descanso, abriria um livro e dormiria ali mesmo. Costume de velhos. 
Mas a verdade dessa história é outra. Na rua, os passos lentos de velho demonstravam o cansaço de um homem só. Branco. Claro e evidente a sua solidão. Neste instante era o Natal que o acolheria. Esse sentimento de união. Família, mas nem todo tem. Nem todos tem família. Ele estava só, indo ao encontro do seu eu só. Na rua ele estava só, junto aos olhos que lhe acompanhavam. Era uma companhia anônima. Mas buscava ser doce. Aqueles passos miúdos, cansados, lembravam de um passado jovem, aquele vento da boquinha da noite trazia-lhe nostalgias. Trazia-lhe a saudade de um homem do passado. 
Ele estava ali, caminhando pela rua arborizada, área nobre da capital baiana, indo para seu lar. Abriria a porta, o vento que cruzava da janela até a porta de entrada o receberia. Um piso de madeira velha rangia como os dentes quando choravam de saudade. Ou de felicidade das lembranças doces. Mas era um velho triste. Apoiaria o panetone na mesa da sala de estar. Iria até a cozinha, colocaria um vinho numa taça esguia como o seu corpo e tomaria em goles bem dosados. Era um velho sofisticado. Aprendera apreciar vinhos numa viagem à Europa. Mas era sozinho. Desfazia o laço de cetim vermelho. Sentia o cheiro pairar pela casa toda. Cheiro de panetone é único. Como a solidão do velho. Branco. Se encaminharia até a varanda, cheiraria o seu manjericão, regaria seu alecrim e cuidaria do pé de arruda para afastar o mal olhado. Se sentia pesado nesta semana que quase findava. Relaxaria seu corpo esguio numa cadeira de descanso, tiraria dos pés os sapatos. Apanharia da estante do lado o seu livro favorito de poesias amargas e leria em voz alta para si mesmo. Era sua felicidade. Repetia infindáveis vezes o seu poema favorito o qual dizia " estar só é amar sua solidão. É lutar pelo anonimato dos sentidos. É não saber quem se é pela falta do amor do outro. Mas estar sozinho é ser poeta. Poeta do amor seu e do amor amargo dos outros". Repetia e em meio as repetições sorrisos em proporções desmedidas saltavam pelos seus lábios rosas. Ainda tinha dentes ligeiramente brancos. Deixou de fumar há alguns anos. Sentado na cadeira de descanso, olhava o horizonte pela varanda, entre os pés de manjericão e alecrim.  A casa tinha um cheiro leve, as vezes só o corpo pesava ali. Mais um gole dosado do seu vinho. Apoia o copo na beira da estante e ali mesmo dorme. O som da vitrola toca a sós. Era de costume dormir ao som de uma bossa nova, aprendera com seu pai o bom gosto musical. 
Na mão direita, branca, carregava um jornal enrolado tido para mim como já lido. E foi assim que o ato rotineiro de repetiu por outras mãos. Brancas. Corpo esguio próximo dos gradis dos luxuosos condomínios da Cidade Alta, fazia questão de ser sutil ao levantar seu braço. O jornal enrolado saia deslizando pelos portões fazendo um som típico do cotidiano. Tristeza para ele era não ter uma grade. O ato se repetiu vezes incontáveis. Olhos paralisados, enfeitados pela beleza do momento puro. Momento de gente boba, jovem. Que tipo de velho enrolaria o jornal e teria prazer em deixa-lo rolar pelas grades? Um tipo de jovem velho. Bobo. Descabelado. Um velho sozinho que aprendeu com os dias a amar sua companhia. Ali, no seu juízo, o seu eu é seu parceiro melhor amigo. E não há quem duvide disso. Ato de beleza singular nas noites de sempre verão. Passava o jornal velho, deixando para trás todo conteúdo lido asqueroso. Deixando ligeiro a maldade escrita. Ali, o velho limpava seu corpo das impurezas de um dia que pesa. De uma solidão que pesa. De um amor tão seu que por tanto precisaria de tantos outros eus. 
O jornal passava, os olhos cada vez mais próximos, ansiosos para chegar e compartilhar o momento. Nunca vira antes o ato feito por outras mãos senão as suas próprias mãos.  Queria olhar nos olhos, enxergar a camisa de botão. E, acima de tudo, ver o semblante daquele rosto branco e velho. Ver paz da velhice misturada com o cansaço dessa vida. Os passos jovem atravessam o velho que continua a caminhar com sua vida lenta. 
Olhos jovens solitários, mas em outra dimensão da solidão. É uma solidão que corre ansiosa pelo dia do amanhecer. Passos lentos causam arrepio, nostalgias. Os olhos escutam antes da distância da saudade a última ver que o jornal toca as grades, enxerga pela última vez o laço de fita de cetim. Vermelho. Natal. O olhos sentem agora seu corpo transparecendo perante os olhos velhos. Sabe-se que ele olhará e enxergará o seu passado jovem, de passos ligeiros, ainda no tempo quando aprendera a gostar de bossa nova, quando assentava o chapéu por malandragem, não por cobrir os fios brancos escorregadios que correm na sua cabeça de vento poesia. Transparece os dias que passaram. Mais perto do sul, some. Os olhos tomaram o caminho para onde o sol nasce. Ao leste. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Família

Gosto de gente! Gosto mesmo. Acho sensacional a capacidade da gente poder ser gente, sei que é meio confuso o que escrevo agora,mas minha vida é isso mesmo, gosto e sinto um prazer enorme em levar a vida desta forma: na confusão. A confusão é ótima para mergulharmos no amâgo e buscar questionamentos e possíveiss respostas,ou não. A monotonia que pode existir me causa repúdio,odeio rotida. sou adepta a mudanças,a novidades, gosto da diferença das pessoas, gosto quando discordam comigo e me provam que aquilo que estão falando é algo verdadeiro,não verdadeiro somente se tratando de razão,mas verdadeiro também na emoção. A emoção é mais verdadeira que a razão. A emoção é você,somos nós,a emoção é o mundo, e o mundo só funciona e gira de forma correta a partir do momento em que as emoções são postas como algo essencial,algo capaz de mudar radicalmente a vida cotidiana de toda gente. 
Todas as Marias que pariram o mundo.



Nasceu! É menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia ela quem seria no futuro. Ela seria avó de alguns netos, mãe de alguns filhos, esposa de um homem, bisavó de alguns bisnetos, amiga de alguns amigos, analfabeta de escrita, sábia da vida, mais tarde seria viúva, velha, cansada, professora dos netos, aquela que capinava o terreiro, que fazia o café, que colocava as roupas para quarar e que amava tanto que quando nasceu ela nem sabia. Nasceu quase índia, a avó da avó da mãe dela era índia e morava numa aldeia do mundo. Aldeia de tantas outras Marias. Aldeia que pariu o mundo. Que pariu o povo. Que pariu esta Maria. Maria cresceu, esperneou, sorriu jovem, pariu tantos mundos, esteve a sós, em par, em família. é preciso ter gana, Maria. Ela teve e com toda sua manha chegou no hoje. Maria corria, subia na cancela, tangia o gado, vestia saia de flores, cuidava dos irmãos. Maria se apaixonou. Nasceu na juventude pelo amor. Maria me emociona. Me faz enxergar ela correndo por dentro do capim alto, mal cortado pela pouca fome do gado solto. O amor é uma coisa boa.
É menina bem criada. Maria foi mulher ruim, se moldou assim por saber que na vida a gente não só pode exalar o cheiro de jardim florido. Maria foi ruim por medo de ser boa demais. Mas a velhice chega e tudo chega junto, inclusive o arrepender-se. Maria é rabugenta, dura na queda quando tem que dizer sobre o amor. Não é das mais claras com o sentir e demonstrar. No seu canto, tira o cochilo da vivacidade. E anda pelos quatro cantos da casa de quintal falando sozinha, reclamando de tudo, até do vento que bagunça os seus fios brancos. Maria é muito discreta sobre si e pela idade, pelo pouco a se fazer, tem como hobby debruçar sobre a janela e ver a vida passar. Os gatos miarem. Todo final de tarde, todo final de tarde ela molha as plantas do quintal, chupa uma acerola em tempo de fartura. Maria mal sabia de tudo que iria acontecer e que jamais alguém escreveria. Essa parte é história só de Marias.
Nasceu! É menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia que seria negra. Mal sabia ela que seria uma das Marias mais lindas desse mundo. Mal sabia ela que seria mais Bela Maria Poesia dançante por ai. E que mais tarde iria parir mundos. Mundos plurais, intensos. Mundos de dentro dela. Mundos que toda Maria é, mas quando nasce não se sabe. Choram Marias por aqui. A dor de parir o mundo, Maria me conta num sonho bom. Maria diz que parir o mundo é se parir, e que nada seria se não tivesse sido assim. Pariu um, ouviu o choro alto, quase ensurdecedor. Pariu dois, ouviu o choro da força de Maria. Pariu três, ouviu o cantar das palavras sobre o amor de todos as Marias que pariram o mundo. Mal sabia Maria que negra seria, que negra paria, que mulher solteira seria. Mal sabia Maria da saudade, do amor que se foi. Maria tinha mãos cansadas de tanto esfregar as roupas, tinha os pés cansados de tanto caminhar e arrumar a casa dos patrões. Maria, quando adolescente, cuidava dos irmãos. Mal sabia ela que teria irmãos e que seria a mãe deles. Cuidava bem. Ouço boatos por ai dessa história de Maria. Mulher boa, cuidadosa como Oxum. É mole, Maria ficou descalça e deu seus sapatos para sua irmã. Maria nunca se importou com isso. é futilidade para ela. A vida de Maria é o silêncio desconhecido. Dentro dela passa o mundo, correm rios, ondas de mar, terra vibra como num terremoto, brota árvores. Nasce mundos. Maria retada. Suportou o mundo nas costas.. Fixou o amor no olhar e a saudade nas lágrima quando pouco caiam. Esta Maria sorrir de chorar, cair no chão e ficar com a barriga doendo. O remédio é colocar ao lado direito uma folha verde e acreditar. Logo passa a dor. Ensinamento ancestral. Maria corria pelo mato, lavava roupa no lajedo, fazia comida em casa e ainda, no final da tarde montava sua trouxa com um pano de prato e corria ao encontro de buscar água na cabeça. Equilibro pouco Maria tinha muito. Amiga dos meninos homens, discreta de tudo. Fala manso, ama muito, sofre calada em alto mar de si própria. Gargalha com seus mundos e ensinou-lhe o sentido e verdade do silêncio. Nem sempre as palavras ensinam. Para esta Maria às vezes as palavras soam arrogantes, prepotentes demais sobre o amor que jamais se poderá dizer. Maria ama em segredo. Na calada da noite. No mundo de Marias os gestos são os gestos e não há quem duvide disso. Trabalhadeira. Maria às vezes lerda, para ela tudo está bom. Ingênua que só Deus na causa, deu a cabeça como degrau para outros, mas para ela a sua missão se concretizava assim. Maria Negra, sempre se subjugou, nunca foi lá essa mulher de acreditar muito em si. Se amar? Oxe. Para quê? Maria sempre quis foi amar os outros. Amar seus mundos paridos? Ave Maria Mãe de Deus, deu o mundo dentro de todos os tantos outros que nasceriam. Papel de dois em um, mulher solteira resistiu. Maria faz cuscuz quando a noite chega, cochila assistindo televisão e dança quando escuta um som. Maria dança meio desajeitada, mas ela aprendeu a dançar com a vida, esta que nunca foi lá essas coisas. Na dança da vida o descompasso era o que fazia dançar. Simetria não existe. Todo dia um leão morto com unhas e dentes. E passos descompassados acompanhavam a trilha sonora de ruídos. Mas nada disso abala Maria. Ela tem vontade é de viver leve, espírito de jovem viajante, de mãe brilhante, Maria voa alto nos seus devaneios quando deita. Ah, quando deita, Maria reza sentada, com os pés cansados sempre cobertos por um lençol finíssimo que quase não abate o frio da madrugada, Maria concentrada. Ela gosta de rezar o Creio em Deus Pai, aquela assim: " Creio em Deus Pai/ Todo Poderoso/ Criador do Céu e da Terra... Nasceu da Virgem Maria... Amém..."Depois de toda história jamais contada por palavras, parte da história calada que pertence só as Marias, se esta Maria não for para o céu, ninguém mais vai. Boa de Deus benza, chega a ser besta, mas é uma besta que ama, então, ser Maria é um dom de ser besta no amor. Maria merece parir todos os mundo e renascer a cada faísca levada pelo vento de uma fogueira de São João na porta de casa. Tantas faíscas clareiam o olhar da mulher cheia de graça. Que estranha mania, Maria, de viver flutuando. Semeando a paz de mãe. Maria acredita e vai. Espaço este agora, para os devaneios sobre esta Maria Maria Maria que mistura a dor com amor e é tão maior. Ela sabe o que faz.
Nasceu! é menina! se chama Maria. Maria nasceu e mal sabia ela que moraria longe de casa, que não concluiria a escola, que seria quase aquela que não fala por preguiça. Mal sabia ela que casaria, batizaria seus mundos paridos, nasceria com o dom das comidas deliciosas. Maria sabe bem. Limpa, que Deus benza. Todo mundo trata Maria como a nojenta de tão limpa. Gosta de dar risada atoa, muito tímida quase não levanta a cabeça. Ama perfumes e vai seguindo pela vida sem ninguém a esquecer. Maria calada, tem pouco cabelo e cuida da casa como ninguém. Exagera.... Maria gosta de apelidar as pessoas acompanhada com muita gargalhada. Maria já gosta de rir. Parece que o mundo de Maria parou. O tempo parou. O movimentar agora é outro. Da saudade da infância quando lembra que corria para lá e para cá. Curiosa pelo mundo, pelo novo. Vive como toda Maria, de fé, coragem e força. Mulher forte. Um, choro mudo. Dois, choro corrido. Felicidade! Toda história que resta pertence somente as Marias.
Nasceu! é menina! se chama Maria. Maria Nasceu e mal sabia ela que paria um mundo não tão jovem assim. Que casaria, sairia da casa de mãe. Maria é tímida demais. Sede de independência, gosta de ter suas coisas e odeia que a estresse muito. Maria estressada é coisa séria. Ouvi dizer que quando Maria está assim vira comédia. Por ai você já tira, como uma pessoa estressada se torna engraçada? Só podia ser Maria, bem que me disseram. Corpo magro, cabelos negros, sorriso calado, olhares escritos poeticamente pela mãe dos céus. Diz tudo. Quase um olhar algo. Transparente. Agoniada, Maria corre contra o tempo. Vai trabalhar, chega correndo, come, sai. Desajeitada para a dança também. Fã de Legião Urbana, adorava usar roupas acima do umbigo, quando jovem. Cresceu aprendendo a trabalhar para colocar comida em casa. Mulher de fé. Maria viva na missa, e reza todo santo dia de Meu Deus. Um choro esperando se escuta. Toda Maria chora porque vive. Só por isso. Então é saúde. Saúda! Vive na dela, sem interferência nas vidas alheias. Não sei por que, mas esta Maria me lembra uma máquina de datilografar e seu barulhinho prazeroso.
Nasceu! é menina! se chama Maria.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Sobre um ser nítido, turvo e não saber o que se é.
Sou nítida e turva.
Outrora me sentia turva.
Tudo em câmera lenta
Turva.
Agora sou nítida
Enxergo-me com a clareza
De uma imagem
Nítida.
Ser turvo parece confuso
Agoniante,
Mas não.
Ser turvo é sentir outra realidade.
O nítido, pelo contrário,
Parece belo
Prazeroso,
Mas não.
O nítido é razão
É aquilo que só os olhos da cara podem ver.
Foi no turvo que senti prazer
Foi no turvo onde o toque chegou.
No nítido vi o confuso
Agoniei-me do igual
Da imagem
Estática.
O nítido é sempre um só.
O turvo é instante
inconstante
Do ver e sentir a
Complexidade do
Turvo.
outubro, 2015

terça-feira, 4 de outubro de 2016

no mar onde encontra-se
onde o cheiro perfumado chega
onde a onda leva
quase afoga
mas hora ou outra ensina a nadar.
onde todo o naufrágio vira recomeço
onde as palavras são à deriva
no mar é onde sempre tem poesia
onde as palavras sempre voam sabidas
sábias.
no mar é onde corro e sinto o teu correr junto
onde o teu cheiro é tão forte que me perfuma também
é onde a tristeza vai embora
e o riso vem
pela promessa leve do cuidado.
no mar é onde encontro-me
encontro-te
juntos ficamos
sorrimos no mar é onde o cheiro perfumado chega
onde a mesma onda que pode afogar
é aquela que faz sentir viva.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

registro poético de uma moça recostada 
e um moço recostado 
na cadeira que leva ao uma viagem 
na madrugada 
eluarada fora.
qualquer canção adormecerá 
paquerando a madrugada 
na varanda do quase amanhecer
bem que joão gilberto dissera,
no fim da canção 
para entrar no samba. 
arrastou a janela
que trouxe vento pro corpo
enlatado,
apertado
dia cedo de buzu
cidade caótica
e nem acordei ainda.
corpos enlatados,
um sobre o outro
sob tantos outros
corpo enlatado
mar à vista
quase gratuito
mas a rotina exige a ida
e corpo enlatado.
coração que voa
aguarda liberdade da volta
nem acordei ainda
e meu corpo já guardado
numa lata apertada.
acho que tô dormindo
nem acordei ainda.
esse corpo enlatado
neste dia cedo de buzu
é muito desesperador
para um coração que quer
banho de mar
banho de voar.
que essa lata se exploda.
vou descer no próximo ponto
da próxima vez.