segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ator de todo esse teatro poético

o sorriso que chegou com o 
azul do céu na noite
foi um riso teatral
que desertou em mim
uma cena lírica.
o moço, ator de todo teatro
interpreta perfeitamente no real
toda utopia escrita.
nas entrelinhas o coração
afogado
se lembra dessa história
que é só contada
não vejo nada de mais nisso.

corpo

o corpo da cidade, dura
pela técnica
é um palco de teatro físico.
o palco de teatro que está no corpo do artista
é sinônimo de sempre mais.
expansão.
todo espaço propõe uma cena
todo espaço é palco de teatro
sobretudo, o corpo. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

amor astronauta


esse amor sem gravidade
que nunca me deixa tocar o chão
esse amor que me deixa levitar como
numa nave, lá no espaço.
esse amor que é um viajante interplanetário 
de todo meu eu.
esse amor que habita 
toda realidade imensamente indefinida. 
esse amor que não me deixa cair
porque de tao leve, flutua lentamente. 
esse amor astronauta
espaçonave. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

prazer da dor

mergulho fundo
gosto da falta de oxigênio 
quando fico submersa em tudo que sinto.
agoniza
agoniza
agoniza
grito estridente 
reverbera
reverbera 
reverbera 
respiro com calma o que sinto
e volto a boiar na superfície. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

intro - carnaval

o carnaval do meu coração
é o mais belo de todos.
porque é como qualquer sentimento
que quando posto para fora
vira festa.

céu em mim

fecho os olhos
e vejo o céu dentro de mim
a lua cheia se faz presente, irradiando luz
e eu me sinto céu por completa
vejo uma constelação
(não aquela real para todos os olhos),
mas uma constelação que carrego comigo.
meu pensamento, neste instante, habita o céu,
só eu sei a verdade do que penso.
sinto o cheiro do céu
e o beijo dos pássaros
quando decidem voar,
quando escolhem ser pássaros.

alma dança

quando vejo uma onda quebrando na praia
minha alma dança, dança, dança…
alma entregue ao mar e os
meus olhos se entregam a empatia do dia
quando parece que o céu vira mar
e o mar vira céu
fica tudo ao avesso
Até eu.

idas

pela janela do ônibus
olho as vidas que passam
e eu passo também.
ouço de longe gritos de angústia
pedidos de socorro.
pessoas clamam por amor, por paz.
violência, violência, violência, nunca mais…
a cidade é um caos.
sonhos despedaçados, vidas amargas.
vidas (sobre) vividas.
passei pelo ponto de parada.
vejo outra dimensão da vida urbana,
vi sorrisos, amigos, abraços, vi vidas vividas.
vi sonhos iniciados, vi sonhos realizados.
amor em toda parte, esperança no olhar dos que passam por mim.
vida doce.
a cada parada, uma descoberta. A cada olhar, uma nova face que avisto.
avistei de longe um morador de rua, uma criança pedindo no sinal.
educação: sinal vermelho.
fechei os olhos e senti, abri os olhos e vi
a realidade escancarada.
vidas opostas, cada um vivendo o mundo que lhe cabe.
mas o mundo não é mesmo um só?
passei do ponto.

saudade

a saudade que sinto é universo
imensa como tal.
queria correr na chuva, beber d’água que cai do céu para tentar fugir da saudade…
buscar a plenitude na chuva.
mas não vai adiantar. Agora quero abraços, quero presença, quero amor verdadeiro
quero família. Quero a parte de mim que ficou lá…
o tempo passa, nesse tempo eu mudei, as coisas por lá também.
tristeza me consome, saudade roendo o peito
amor querendo ser amado através de gestos,
não de palavras.
saudade de casa.

'g'

menino, tu que ta aí acordado 
olhando esse quarto escuro cheio de cores. 
isso mesmo. 
cheio de cores. 
fecha os olhos e sente em si a constelação 
que teus olhos fotografaram em dias estrelados. 
menino, pensa uma poesia 
e escreve na tua alma. 
guarda só aí dentro. 
essa poesia é a sua poesia de instante. 
que grita a verdade do sentir. 

pena

pena das pessoas que não se fazem pena. 
pena de mim, por querer ser pena 
e às vezes ser raiz.
que mesmo sem querer, se finca em solo duro. 
mas ainda assim, sou pena. 
porque as penas, por instantes, até duradouros 
são fincadas nas asas dos que voam. 
elas precisam estar ali. 
resistentes. 
seguras em algo. Mas, em determinado momento do senhor tempo, 
elas são obrigadas a cair. 
cair de alturas inimagináveis.
cair, somente. 
quando a pena cair e encontrar o vento
ela terá a experiência de um voo livre
sentirá a liberdade que te abraça. 
agora, sinto pena das asas que voam. 
elas não mais voarão com estas penas. 
que pena! 
porém, terão o privilégio de voar com asas recém surgidas. 
com as que ensinarão desde o princípio o 
que se deverá aprender no instante do já. 
surgiu novos ciclos de penas coloridas, 
que se fincarão mais uma vez nas asas que voam. 
agora, não mais sinto pena. 
sinto desejo de voos desconhecidos. 
neste instante elas são obrigadas a, somente, voar. 
conhecer
 viver
sentir 
tudo de novo que essas penas que ajudam 
a levantar voos Irão proporcionar. 
pena de mim quando perder tais penas. 
mas ainda assim, maior pena teria de mim, 
se continuasse com elas em tempos eternos.
gosto da queda livre. 
de raízes flutuantes. 
às vezes são necessárias para 
conhecer o ser que é si só. 
se for para estar fincada a algum solo, 
que seja o solo de asas que voam. 
o solo que compartilha, 
respeita e ama no sentido vasto. 
que sente infinito, mas que saiba a finitude que existe em todo ele.
das metades que formam o todo
que também é metade de algo. 
penas que voam! 
pena das penas que não escolhem voar. 
pena tenho das penas que não se deixam cair. 
penas que se fincam em tempos eternos, sufocantes,
de asas que voam,
um dia não mais voarão. 
estarão cansadas e aflitas de serem as mesmas penas,
de voarem no mesmo céu. 
a intensidade da queda não mais existirá. 
não tem nada de novo nisso. 
que pena. 

fitas

agora os meus braços e mãos,
com a ruir do vento, se tornaram fitas. 
fitas coloridas que vão e vem
em uma dança da sutileza. 
o toque material não existe
sinto-me em outra dimensão.
em instantes, o vento passa mais lentamente
as fitas agora se movem devagar 
sentem a falta do vento quando deixam de dançar. 
a dança para as fitas é sinal de vida.
as fitas vão caindo, caindo, caindo, caindo… 
param entrelaçadas ao colo. 
volto a tocar,
a tocar com uma certa dormência na ponta dos dedos.
volto a tocar de uma forma nova. 
agora sou flores. 

en (cantos)

de muitos en (cantos) e axés…
um canto é entoado
 frente ao Elevador Lacerda, 
respira fundo e inicia. 
chapéu ao lado, no chão e 
a voz soando leve, breve. 
as moedas caem no mesmo ritmo… 
junto ao canto, um sorriso de en (canto).
meta cumprida! 
logo mais é chamado ao canto, 
com encanto, vai. 
“ você não pode ganhar a vida aqui, este lugar é espaço público! ”
 em meio a tantos questionamentos, preferiu cantar 
 para ver se, de fato, os males se espantam… 
 dessa vez, o mal presente era ele mesmo. 
o exército se aproxima, 
pega-o pelo braço e leva-o 
ao en (canto) da Bahia, 
para sentir na pele o seu axé. 
no canto é posto, 
voz embargada. Se cala. 
um canto rasgado é entoado dentro do peito. 
 palavras são ditas de forma asquerosa. 
preto no canto e gemidos silenciosos. 
o “ espaço público” agora é outro.
batem no seu corpo público
na sua dignidade pública 
no seu canto público. 
dias se passaram,
corpo dolorido, voz amarga. 
o direito a proteção
vem em forma de agressão. 
vive na rua 
no en (canto) da Bahia 
e sente na pele o seu axé 
axé amargo. 
indignado, se pergunta 
em terra de encanto, 
preto no canto 
não pode nem cantar?