sábado, 13 de agosto de 2016

COBERTA VERMELH

retomo aos meus quase treze anos, se é que minha memória não me deixa vagar. Lá nos quase treze anos, um do dias mais marcantes foi o dia que mainha me deu uma coberta vermelha, daquela com tecido bem grosso e bordado em linha branca, trouxe também uma para minha irmã, mas a dela não era vermelha como a minha. a dela era azul, um azul bonito até... Naquele dia, aquela coberta se tornou um dos meus corpos e de lá para cá ela nunca me abandonou, hoje ela se faz em sentidos.
Quando a gente cresce, a gente tem a liberdade de escolher ser diversos corpos, eu penso assim. corpos das memórias que nos seguem. eu tenho vários corpos. tenho um corpo que é um corpo coletivo, meu e de meus amigo, um corpo de quando jogávamos baleado lá na praça da vilinha onde me criei. tem um corpo que é o pé de acerola que tinha no quintal, era uma árvore linda, aliás, esse é um dos meus corpos que morreram, meu corpo pé de acerola morreu para no seu lugar nascer uma cisterna, daquela que capta água para matar a sede, a partir disso, meu corpo acerola se ressignificou e nasceu meu corpo cisterna, era um corpo flexível, eu me moldava ali quando tinha que ajudar minha vó na lavagem. ah, tinha que ser sempre antes das fortes chuvas. antes do tempo das trovoadas. tive também um corpo pé de siriguela, era um corpo maleável demais. um corpo doce. já fui corpo de chiquita, minha cadela favorita, ela era vira-lata, meio bege, um tom desconhecido chiquita tinha. meu corpo chiquita era amigo fiel. chiquita morreu. agora esse corpo é só memória. Tive um corpo passeio, meu corpo passeio era largado e tinha cor de terra. meu corpo passeio sempre vinha na boquinha da noite, quando podia largar-se ao chão e tomar aquela fresca. Tive um corpo lindo... era uma sainha,bem curtinha, ela era vermelha e tinha um desenho de uma tartaruguinha bem ao lado do bolso, este que era listrado em preto e branco. tive um corpo que era meu cabelo sempre trançado, esse corpo resistiu a todas as pirraças dos colegas de escola. era um corpo não sei até que ponto vivo, eu não gostava de voar ainda... tinha medo da queda. eu tinha um corpo que deitava ao colo de mainha toda noite, deitava esperando cafuné em toda minha bagunça de cabelos.
de tantos outros corpos que fui, continuarei sendo tantos mais quais vierem. mas o corpo que renasceu, foi o meu corpo coberta vermelha... eu tinha quase treze anos quando mainha me deu essa coberta. como o tempo passa. como eu me deleito nessas palavras. como é bom sentir saudade de tudo que você é. a saudade não é só do que passou. agora eu sinto saudade de mim, de tudo que sou. a saudade eu sinto hoje, amanhã eu passo. de tantas idas e vindas, essa marcou. Quando deitei-me, era quase madrugada... mainha tinha preparado a cama, bem arrumada. me acomodei e fui me cobrir, não tinha dado conta ainda do corpo que viera mais tarde. O corpo que estava ali era o corpo coberta vermelha, neste instante, parecia que estava em estado de feto ainda, ele não nascera naquele instante. antes de tudo eu tinha que perceber que ele estava ali e, somente com as memórias que vinham, meu corpo nasceria, aliás, renasceria. cobrir-me com movimentos que levavam a coberta ao meu corpo de forma sutil. ainda eu tinha um corpo. quando aquele vermelho tocou meu corpo, eu me desfiz. eu era fumaça de saudade. era como se a coberta apagasse esse corpo que sou agora, era como sentir-me de uma vez só todos os corpos que fui, antes de me moldar esse. O corpo que tive era o corpo coberta vermelha. O vermelho bordado, apagou o que tinha, e desenhou-me de volta. Cobri toda extensão, e eu me sentia a coberta vermelha, o meu mundo era aquele. O meu universo tinha um tom vermelho, com um cheiro doce que vez ou outra passava. era um corpo bem lavado. banhado com amor de flores e sol para quarar. meu universo era imóvel, onde só os pensamentos oscilavam. o movimento era pouco. estava travada sentindo outras forças. nesse universo tinha gravidade ao passo que não. era um túnel vermelho. meu corpo coberta vermelha, tinha uns bordados formosos. ter um corpo bordado é poético. é inspirador.
envolta daquele corpo, eu sentia-me movendo sem sequer mover nada. eu estava rodando para lá e para cá, era um corpo parque de diversões também. fechava os olhos e a luz sobre a coberta chegava se posicionar sob minhas pálpebras levemente fechadas. era um vermelho fechado, parecia um sangue que coagula. aquele vermelho escuro, um vermelho em nós. eu dormi no tom de um sangue coagulado. eu dormi em um túnel cheio de magia. meu corpo sentiu sensações diversas, únicas, somente, para que tem um corpo coberta vermelha. esse corpo é só meu. são minhas estas memórias doces.
hoje, pego-me a deleitar somente sobre o doce memorável. No intervalo de todo esse viver novo, fui diversos corpos cobertas, aliás, é de muita irresponsabilidade minha comparar lençol com coberta, recapitulo e digo que em todo esse viver novo eu fui diversos corpos lençóis. Aquele que não barra o frio, tão pouco o calor sentido pelo coração. o vento que entra pela janela às vezes é forte demais, levanta sem dó nem piedade todos os meus corpos dessa vida nova. É como se eu fosse uma borboleta que só sairá do casulo que tem por nome coberta vermelha. agora eu sou um corpo borboleta envolta por lençóis, nem sempre são tão frágeis. Lembrem-se disso. Hoje viro-me ao avesso, meus corpos novos são imaturos demais, não sabem nem das palavras que escrevem, tão pouco saberão de si. O si são corpos mutáveis, móveis, maleáveis, incontáveis. A essa hora, o meu casulo coberta vermelha está dobrado, bem lavado, porém sem mim. porém sem o meu movimentar. De tantos corpos que fui, continuarei sendo tantos mais quais vierem. o que veio agora é um corpo que quase sempre vem. o corpo que vos apresento agora é o corpo nada. O corpo desnudado, que não sente nem frio, sequer calor. O corpo de agora é descoberto.
Descoberto nu. Despido pela saudade, despido de memórias. Um corpo nada.
De todas as minhas palavras desconexas, de todo meu dialeto só meu, fica claro o meu eufórico sentimento pelo corpo coberta vermelha que fui um dia. Este é um corpo que nunca morre. A coberta vermelha me cobre, me apaga, me revive e me leva a viver um corpo novo. me leva, sobretudo, a sentir um corpo novo. envolta dela o vento passa sutil cantando. o cheiro doce é do coração que floresce as memória. Os meu corpos lençóis daqui não quaram, jamais pus a sentir-se novos assim. Os corpos lençóis daqui são amaciados pela solidão do amor a sós. eu quero um corpo de amores a sós, mas juntos em sua solidão. Os corpos lençóis se rasgam mais facilmente pela dureza da lavagem a qual são submetidos. o cuidado perdeu-se na cronologia do tempo que desce ralo abaixo. A maciez do toque é sutil demais, não consegue tirar o lodo, este que vai formando capas, e mais capas, e mais capas, até pesar e ter que jogar fora. As memórias desse corpos podem ser leves, mas pesam bem mais que dos corpos cobertas. Jogamos fora rápido demais os corpos novos, numa pincelada mentirosa de sentidos resgamos, esfacelamos fio a fio. E ai despimos os nossos corpos das memórias e ai deixamos de ser corpos doces. O passar é rápido, mas tem que ser bem coberto, até apagarmos e nos tornamos tantos outros. Não quero ser um corpo sem memória. O meu pensar é líquido, seca rapidamente quando coloco para quarar em palavras. é o tempo do meu pensar sair um tanto mais alvo.
De tantos corpos que fui, continuarei sendo tantos mais quais vierem

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