Nas mãos, a memória em forma de
barro, lapidado como uma pedra bruta por mãos desconhecidas. Carrego nas minhas
mãos memórias alheias que compõe as minhas memórias de dias doces, como este.
Nos olhos a vontade de enxergar flores no escuro, de pintar com eles telas
invejáveis de tão autênticas. Nos lábios o desejo de apagar o fogo de uma sede
que queima.
Nos pés, um caminhar pesado, mas
cauteloso, que desce a escada até algum lugar.
Antes mesmo da metade do caminho, os
passos se tornam mais levem em questão de segundos, no primeiro patamar escuto
o som do piano que é tocado lá na sala de estar, no nobre salão das assembleias
de sempre. os pés pausam atentos a sinuosidade das ondas musicais que envolvem
toda uma vida. Eu amo música, é como um colo que me nina leve, num balançar de
uma rede em noites de verão. Os meus pés mostram a ânsia de caminhar até os
dedos que tocam, mas preferem ficar calados somente a ouvir.
Os dedos que tocam o piano na sala de
estar, imagino os olhos fechados e um coração em movimento harmônico como a
música que me deixa quieta. atenta. estado raro em minha pouca existência. Os
dedos tocam e o meus ouvidos sentem e amam. Sigo o caminho contrário ao som,
este que faz a casa dançar em tons clássicos. Aluada dos sentidos, envolvida
com os poucos minutos de tanta coisa sentida, percebo que amo. Os meus olhos
miram a luz de frente pela greta da janela de um vidro estraçalhado. e eu
percebo que amo, e eu sinto amor. Acho que de todas as coisas da vida, nesse
quesito eu sou boa, se é que eu sei o que é o amor. Eu amo? devo admitir que
amo desse jeito sem sentido, mas bastante propício a sensações de paz sublime e
de olhares de mar. Eu acho que assim eu amo, a minuciosidade das coisas me faz
amar e descobrir quais os meus amores de uma vida ritual de passagem.
Equilibro-me sobre o pé direito e por
pouco não voei. Não voei porque a música parou, os dedos erraram uma nota que
me atordoou o voo. Mas não demora, volto logo a tocar.
Olho pela janela e não existo. O
vento passa cantando chacoalhando as folhas até caírem.
Nas mãos carrego agora, além das
memórias alheias, o combustível que mata a sede que queima. Os pés postos a
retornar, caminham lentos ao passo que os dedos tocam. O som se aproxima, a
madeira canta assombrando os novos que chegam e me vou indo, ainda desvio do
caminho da sala de estar onde os dedos tocam, onde os dedos me tocam. Primeiro
degrau sinto alegria, no primeiro patamar eu pauso por mais uma vez, ouço a
fluidez do som que vem. da metade da escada para lá já sinto saudade, mas os
lábios queimam por toda sede que foi esquecida. Agora sinto sede de mais, do
som que vai se estreitando a cada degrau que sobe.
Atenta as sombras projetadas da
escada no nível de baixo, os dedos continuam a tocar o piano antigo em um salão
antigo que cada dia é novo em mim. E os meus olhos se embaçam a sós, sentem
vertigem do topo da escada, os meus pés voltam a caminhar pesados, os meus
ouvidos silenciam pela saudade do pouco som que se escuta daqui. Nas minhas
mãos, memórias alheias, combustível que mata a sede que queima e a força que
empurra a porta e pausa o relógio.
O som do piano se abafou.
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